terça-feira, 19 de novembro de 2013

vamos mudar essa população vamos fazer com que os Tutsis tenham diretos a viver em liberdade, podemos todos jutos acabar com essa briga entre as duas etnias.

http://www.youtube.com/watch?v=OxBK7O87QEk

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Economia Ruandesa

Raunda é um país pobre  onde 90% da população  trabalha na agricultura , principalmente de subsistência  além de produtos agrícolas e produção industrial.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Opinião

Bom minha opinião sobre a politica ruandesa não é daquelas melhores pois acho que com o passar do tempo eles deveriam ter mas controle de  seus habitantes Hutus pois mesmo com seus chefes presos no  Congo eles podem ter sua revolta novamente e atacar mas uma vez os inocentes tutsis. Desde a primeira vez que eu assisti os dois filmes mas conhecidos sobre o maior massacre ocorrido em 1994 me apaixonei completamente com aquele humilde pais  mas com uma coragem imensa por enfrentar pessoas perigosas e desde então não paro de pesquisar pesquisar sobre a historia de Ruanda.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Depoimento de uma sobrevivente tutsi


Nunca imaginei conseguir perdoar quem tentou me matar'

Sobrevivente do genocídio de Ruanda, em 1994, Immaculée Ilibagiza conta ao site de VEJA como superou o trauma de perder a família da maneira mais trágica

Cecília Araújo
Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio em Ruanda, durante palestra sobre o livro "Sobrevivi para Contar" no teatro Tuca, São Paulo
Immaculée Ilibagiza: seu sobrenome significa 'bela e brilhante de corpo e alma' (Aline Lata)
"O pior mesmo era não saber o que viria amanhã. A dor no espírito é que me fazia mal. A imaginação fértil de como teriam matado meus pais e irmãos e poderiam me matar a qualquer momento. O sentimento de que a morte podia chegar a qualquer momento, de não estar em paz em um só minuto."
Um dos menores e mais pobres países da África, Ruanda já esteve entre os mais densamente povoados do continente. Lá, cada membro de uma família tinha sobrenome diferente, que refletia os sentimentos do pai e da mãe ao ver pela primeira vez o bebê. Na língua nativa, kinyarwanda, o de Immaculée Ilibagiza significa "bela e brilhante de corpo e alma". Nascida em 1972, em Kibuye, uma província da Ruanda Ocidental, Immaculée era filha de católicos fervorosos, que faziam de tudo para poupá-la das mazelas do mundo. Por isso, até entrar para a escola, não tinha consciência de que as pessoas pertenciam a grupos e raças diferentes. Jamais havia escutado palavras como tutsi, hutu e twas - as tribos que povoavam sua aldeia, Mataba, e todo o país. A maioria era hutu, uma minoria, tutsi, e um número insignificante, twas. Só mais tarde ela compreendeu que os colonizadores alemães - e depois os belgas, que os substituíram - tinham convertido a estrutura social local. A antiga monarquia de reis tutsis, que por séculos zelou pela paz e harmonia, tornara-se um sistema discriminatório de classes. Mas na casa de Immaculée era diferente. Qualquer um era bem-vindo, independentemente de raça, religião ou tribo. Afinal, hutus e tutsis falavam o mesmo idioma e tinham toda uma história em comum. As culturas também tinham muitos pontos em comum: cantavam as mesmas canções, cultivavam a mesma terra, frequentavam as mesmas igrejas e cultuavam o mesmo Deus. Viviam nas mesmas aldeias, ruas e, ocasionalmente, nas mesmas casas. Até que, na década de 1990, essa convivência pacífica foi destruída.
Immaculée Ilibagiza era da tribo tutsi e tinha 22 anos quando sobreviveu a um massacre de proporções que ninguém podia prever (relembre o genocídio de 1994 no quadro abaixo). Em plena comemoração da Páscoa, ela passava férias na casa dos pais e viu dali sua família se separar para sempre. Vizinhos, colegas de escola e até amigos próximos hutus se transformaram em caçadores, treinados para matar a qualquer custo e torturar todos os tutsis que encontrassem pela frente. Assim, conflitos étnicos ancestrais culminaram em um verdadeiro holocausto que deixou quase de 1 milhão de mortos, em ataques de violência brutal. A mãe de Immaculée, Rose, foi uma das primeiras a morrer. Ela estava escondida no quintal de uma vizinha quando percebeu que alguém seria morto ali perto. Pensando se tratar de um de seus filhos, saiu pela rua gritando: "Não matem Damascene". Mas ele não era a vítima, e ela passou a ser perseguida. Disseram-lhe que se desse dinheiro, a deixariam em paz. Ela concordou e foi pedir ajuda a uma amiga hutu, que não só a expulsou como pediu aos assassinos que a matassem na rua para que não sujassem seu quintal. Outros familiares de Immaculée também foram alvo de traição. Seu pai, por exemplo, foi pedir ajuda a um funcionário do governo - que ele acreditava ainda ser seu amigo - para um local onde milhares de refugiados não comiam havia dias. O hutu, porém, chamou-o de idiota e mandou os soldados arrastá-lo para fora. Foi fuzilado. Dos três irmãos, apenas um sobreviveu, Aimable, que estava estudando no Senegal.

Ruanda: os fatos que antecederam o genocídio de 1994

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O nascimento de um sistema discriminatório de raças

Por séculos, a antiga monarquia, de reis tutsis, manteve Ruanda em paz e harmonia. Foram os colonizadores alemães - e posteriormente os belgas - que transformaram a estrutura social do país em um sistema discriminatório de classes, tendo por base a raça das pessoas. Os belgas apoiavam a aristocrática minoria tutsi e os colocaram à testa do regime monárquico - que era então chamado Ruanda-Urundi. Por isso, os tutsis recebiam uma educação superior para melhor dirigir o país e promover maiores lucros a seus senhores belgas. E para distinguir mais facilmente os integrantes de cada tribo, os colonizadores instituíram uma carteira de identidade étnica, aprofundando o fosso que cavaram entre hutus e tutsis. Esses fatos criaram um duradouro ressentimento por parte dos hutus, alimentando os sentimentos que levariam ao futuro massacre.
Esconderijo e fuga - Immaculée conseguiu asilo na casa de um generoso pastor hutu. Para se esconder, compartilhou um pequeno banheiro de 1,5 por 1 metro com outras sete mulheres por 91 dias. Elas se comunicavam em silêncio, por sinais, e mal conseguiam se mover. Dali, escutava transmissões de rádio em que as próprias autoridades do governo declaravam: "Quando todos os tutsis estiverem mortos, vai ser como se nunca tivessem existido". Depois de seus pais e irmãos, Immaculée seria a próxima vítima. "Eram muitas vozes, muitos assassinos. Eu podia vê-los com os olhos da mente: meus amigos e vizinhos, que sempre me haviam recebido com amor e bondade, andavam pela casa munidos de lanças e facões e chamavam por meu nome", recorda ela, que conta detalhes de como conseguiu se salvar no livro Sobrevivi para Contar (Editora Fontanar), escrito em parceria com o jornalista americano Steve Erwin e traduzido para 27 idiomas.
Hoje, vive nos Estados Unidos com o marido e os dois filhos, e direciona seus esforços à organização que criou, Fundação Ilibagiza, para amparar sobreviventes de guerras e genocídios. Também faz palestras pelo mundo contando sua experiência e exaltando sua fé - que, segundo ela, a ajudou a superar os traumas que a tragédia marcou em sua vida. Esta semana, esteve no Brasil. Com uma imagem delicada e deslumbrante ao mesmo tempo - vestida de longo verde claro e levemente brilhante, unhas vermelhas, cabelos alisados e anéis em vários dedos -, entrou no Teatro Tuca de São Paulo, superlotado. Ouvia-se do público frase como: "Foi a fé dela que fez com que as coisas se transformassem para o bem". Ao falar sobre o genocídio, sua voz vacila, mas ela não cai no choro. Fica grande parte do tempo com um rosário na mão direita. "Nunca imaginei perdoar quem já tentou me matar, contou ela à reportagem do site de VEJA, com quem conversou logo após o evento. Confira a entrevista:
Aline Lata
Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio em Ruanda, durante palestra sobre o livro "Sobrevivi para Contar" no teatro Tuca, São Paulo
Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio em Ruanda, durante palestra em São Paulo

Quando a senhora era criança, seus pais escondiam a dura realidade de discriminação e disputa entre tutsis e hutus em Ruanda. Foi melhor assim? Acho que eles fizeram bem ao evitar que meus irmãos e eu olhássemos para membros de outras tribos como inimigos. Não se deve colocar todos os hutus "num mesmo saco". São pessoas como nós, que frequentavam nossa casa e eram nossos amigos. Meu pai, especialmente, sempre me ensinou a olhar o lado bom das pessoas, mesmo sem deixar de me proteger. Também cresci ouvindo que há injustiças na vida, mas que o amor supera todas elas. Por isso, não se deve imitar ou se vingar daqueles que nos fazem mal, apenas nos proteger deles quando necessário. Se alguém é gentil, não importa que seja de outro país, etnia ou religião.
No momento em que a guerra entre hutus e tutsis se intensificou, a senhora acabou sendo considerada inimiga por vizinhos próximos, colegas de escola e até amigos íntimos. Alguns chegaram a querer vê-la morta... Sim. Foi horrível saber que qualquer pessoa é capaz de trair em nome de um sentimento de ódio coletivo - e isso me dói ainda hoje. Senti que, se não somos prudentes, podemos acabar nos rendendo ao mal e também machucar as pessoas. Todos estão sujeitos a isso. Por outro lado, essas traições também me ajudaram a crescer muito. Hoje, não deixo de dar um voto de confiança às pessoas, embora já não espere mais tanto delas. Para mim está claro que o mal pode vir de qualquer um, então, trato de me proteger.
A senhora teve que se esconder em um banheiro minúsculo, com outras sete mulheres. Ali, o que era pior: a falta de espaço, o mau cheiro, não poder falar ou escutar e ver o que não queria? Acredita que não me lembro de nenhum mau cheiro? Eu tinha 30 quilos quando saí do banheiro. Nada físico chegava a me incomodar lá dentro. Só me dei conta de que estava subnutrida quando saí do cômodo e não conseguia ficar em pé. O pior mesmo era não saber o que viria amanhã. A dor no espírito é que me fazia mal. A imaginação fértil de como teriam matado meus pais e irmãos. O sentimento de não estar em paz em um só minuto, de que a morte também poderia chegar a mim a qualquer momento. Somente quando eu orava conseguia me sentir um pouco melhor. O rosário que meu pai me deu em nossa despedida era minha principal ferramenta para chegar a Deus: rezava 27 vezes por dia.
Começar a aprender inglês no banheiro também ajudou a esquecer um pouco os problemas? Os estudos me ajudaram muito a ter esperança e crer que tudo iria dar certo no final. Ao aprender inglês, imaginava meu futuro chefe (sonhava em trabalhar nas Nações Unidas) me fazendo perguntas. Logo aprendi a dizer como me chamava, de onde vinha, o que tinha se passado. Formulava as frases e decorava palavras-chaves com esse mesmo objetivo. Isso me ajudou a não pensar "por que", mas sim "o que fazer agora".
Aline Lata

Como foi saber que seu nome estava na lista dos que seriam mortos em breve pelos hutus e até mesmo ouvir seu nome pronunciado por assassinos com quem a senhora havia tido relações amigáveis no passado? Foi surpreendente. Não imaginava que uma coisa dessas poderia acontecer, ainda mais vinda de pessoas que sempre foram gentis comigo. Enquanto eu estava escondida no banheiro, alguém gritava ter matado 399 pessoas e repetia que eu seria a 400ª. E eu reconheci aquela voz: era um antigo amigo! Nesse momento, tive a completa noção de que tudo de pior poderia me acontecer.
A senhora admite que, em muitos momentos, chegou a sentir raiva e cogitou vingança. Quando foi isso? Durante muito tempo em que estava escondida no banheiro, carregava muito ódio no coração. E pensava ter razão de sentir isso, por tudo o que estava passado. Em meio às minhas orações, me dei conta de que não estava seguindo um trecho que tanto repetia no Pai Nosso: "Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...". Estava mentindo para Deus, pois o perdão não era o que eu de fato sentia. Então, comecei a ignorar essa parte da oração. Rezava todo o restante e, quando chegava nesse pedaço, pulava. Nunca imaginei perdoar quem já tentou me matar. Pensava em me tornar um soldado e matar todos da outra tribo.
E como conseguiu superar? Ao omitir o trecho da oração, sentia que estava sendo sincera, mas aquilo me incomodava. Então, decidi pedir a Deus força para superar toda aquela raiva. Como sempre acontece quando desejo muito qualquer coisa grande, a solução chegou. Logo me lembrei do que Jesus disse a Deus antes de morrer: "Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem". Era o sentido que eu esperava para, finalmente, conseguir perdoar. Os hutus estavam fora de si, tinham perdido a razão e faziam mal a si mesmos, a sua consciência. Claro que a tentação de se vingar existe, mas nós, que estamos em sã consciência, devemos apenas nos proteger e perdoar. A principal coisa de que devemos nos defender é o ódio - ele destrói amizades, famílias e até países. Já o amor, salva e permanece. Se eu consigo sorrir depois de tudo, foi graças à fé e ao perdão.
Logo que teve a oportunidade, a senhora quis saber detalhes da morte de seus parentes. Por quê? Até certo momento, fechei os olhos para uma série de coisas, também porque não me sentia no direito de chorar no banheiro, na frente das outras mulheres. Quando saí, no entanto, não queria continuar a me iludir sobre a situação de minha família. Sem saber a verdade, nunca poderia me libertar. Então, decidi que precisava descobrir o que tinha acontecido, mesmo que isso me fizesse chorar. Era necessário pensar logo no que eu iria fazer depois, sem me apegar a ilusões.


A senhora acredita que, se as Nações Unidas tivessem intervindo em Ruanda em 1994, a história do seu país seria outra? Se a ONU e as grandes potências do mundo, especialmente os Estados Unidos, pelo menos tivessem chamado a atenção para o genocídio e pedido que a guerra parasse, isso já teria feito uma grande diferença. A intervenção na Líbia, por exemplo, foi importante para impedir a morte de milhares de pessoas, mesmo que esteja durando mais do que o previsto. No caso de Ruanda, acredito que uma intervenção impediria o massacre quase que instantaneamente, mas somente com ameaças e palavras, os hutus já vacilariam. E a comunidade internacional apenas deixou continuarem as matanças até a morte de quase 1 milhão de pessoas. É difícil para você imaginar, mas a cada metro do país havia corpos. Até hoje, quando se anda pelas ruas, é possível ver ossos dos mortos no massacre.

Para nossa alegria*__*



sábado, 27 de abril de 2013

Memorias de um Genocidio


genocídio praticado em Ruanda é o evento mais trágico da segunda metade do século passado; todavia, dez anos depois, ele está quase totalmente esquecido. A hecatombe de 1994 deve ser lembrada, estudada, analisada, discutida, porque contém um grande número de lições que nos ajudam a entender melhor nosso tempo. Os massacres de 1994 não são frutos de uma explosão de loucura coletiva, mas a máxima expressão de um ódio muito antigo.
A Ruanda pré-colonial certamente não era um país onde todos gozassem de suficiente dignidade e oportunidade; havia divisões sociais, tribais; as monarquias distribuíam privilégios e riqueza de maneira articulada. Mas os colonizadores – inicialmente alemães e, depois, belgas – tiveram grande responsabilidade na exasperada divisão do país entre dois grupos rivais, os hutus e os tutsis. Em 1932, quando os belgas criaram o documento de identidade étnica, chegou-se a uma situação sem retorno: os twás, além dos hutus e os tutsis, viram-se oficialmente divididos.Os colonizadores atribuíram privilégios e cargos de comando apenas a uma restrita elite dos tutsis, despertando o ódio crescente nos hutus. Depois de deixar o país, os colonizadores assistiram à tomada do poder pela maioria hutu, até então oprimida, sem a preocupação de refrear as tensões causadas por sua política criminosa.
Durante os anos setenta, quando Juvenal Habyarimana chegou ao poder, um grande número de países ocidentais concedeu ao país enorme crédito político, mas principalmente econômico. O auxílio externo equivalia a 22% do Produto Interno Bruto, com rasgados elogios do Banco Mundial, apesar de Habyarimana reprimir de modo sistemático e duro os dissidentes.
Antecedentes da guerra civil

Cena de destruição e cadáveres espalhados
O envolvimento de potências estrangeiras, e sua conseqüente responsabilidade, foram crescendo cada vez mais. A aceleração na direção do genocídio agravou-se em 1990. A Frente Patriótica Ruandesa, formação político-militar dos tutsis egressos do país após o fim do colonialismo, atravessou a fronteira da Uganda e iniciou a guerra civil. A França se alinhou ao governo de Habyarimana mas, para alimentar o conflito, chegaram também armas egípcias, britânicas, italianas, sul-africanas, israelenses, do Zaire e de outros países.
Ruanda, pequeno país, famoso por sua miséria, tornou-se o terceiro país africano na importação de armas. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, graças sobretudo a financiamentos franceses, adquiriu da China 581.000 machetes (sabre de artilheiro, com dois gumes), armas impróprias, mas de preço acessível. Nenhuma potência ocidental ou organismo internacional monitorou seu comércio, nem impôs proibições; assim é que, nos mercados de Ruanda, é mais fácil encontrar granadas do que frutas ou verduras.
Acordos de papel
A ONU, a OUA (Organização para a Unidade Africana) e alguns governos resolveram sentar-se com Habyarimana e a Frente Patriótica para discutir um documento elaborado em Arusha, na Tanzânia. Os representantes de cada parte assinaram um articulado Tratado de Paz, que permaneceu apenas no papel. Por outro lado, nenhuma das organizações envolvidas, nem mesmo a diplomacia dos países ocidentais, preocupou-se em verificar o que estava acontecendo de fato. E os dois contendores continuaram a se armar até os dentes.
Em Ruanda, a violência contra os tutsis foi aumentando semana a semana. Algumas partes do Tratado são de fato contraproducentes e nada fazem, senão incitar mais ainda os extremismos. Controlada pelo clã Akazu, ligado à mulher de Habyarimana, a imprensa hostilizou duramente os acordos e gerou um veículo que se tornou tragicamente famoso pelo seu incitamento ao ódio durante o genocídio: a Rádio Mil Colinas. Não obstante este crescimento, a missão dos capacetes azuis (da ONU), enviada a Ruanda para ajudar na implementação dos acordos, foi particularmente frágil.
Sinais ignorados
O general Romeu Dallaire comandava as tropas da ONU. O objetivo era manter a paz, mas, no “país das mil colinas” não havia paz. No dia anterior à sua chegada em Ruanda, o domínio militar tutsi ameaçou o primeiro presidente democraticamente eleito na história do vizinho Burundi, o hutu Ndadaye. Houve confrontos e cinqüenta mil pessoas, na maioria hutu, perderam a vida. Outros fugiram para a Ruanda meridional. Não era o primeiro massacre de hutus causado pelos tutsis do Burundi, e nem o pior, pois, em 1972 foram massacrados pelo menos 200.000, seguido de um presumido golpe de Estado.
A violência, provocada pelos militares tutsis do Burundi, alimentou cada vez mais o ódio dos hutus contra os tutsis de Ruanda. Dallaire entendeu logo o que estava acontecendo: havia urgente necessidade de uma força multinacional, preparada para refazer a ordem, interromper a chegada de armas, garantir a segurança dos civis e dos líderes políticos. Desde dezembro de 1993 até abril de 1994, Dallaire implorou-a outras vezes a seus líderes, à ONU e a quem encontrasse. Não foi ouvido.
Em 6 de abril de 1994, o presidente Habyarimana foi morto, não se sabe por quem. A guarda presidencial, parte do exército e um número enorme de esquadrões da morte, perseguiram os tutsis, conforme um plano bem elaborado. As vítimas do extermínio, segundo estimativas cautelosas, foram quinhentas mil; segundo os maiores críticos, um milhão. Dallaire reuniu outros cinqüenta mil homens, convencido que seriam suficientes para acabar com os massacres.
Mas, na manhã do dia 7 de abril, dez capacetes azuis sob seu comando foram mortos e o Conselho de Segurança (da ONU) decidiu pelo retorno da maioria dos soldados da missão. Dallaire manteve quatrocentos capacetes azuis, quase todos da Tunísia e de Gana. Eles salvaram 25.000 pessoas, mas o genocídio acabou somente quando a Frente Patriótica venceu a guerra civil.
Os soldados tutsis da Frente, bem preparados e disciplinados, não economizaram represálias, ataques a órgãos civis, como hospitais e igrejas. Sua operação não tinha as intenções genocidas dos extremistas hutus, mas os crimes de guerra, pelos quais foram responsáveis, precisam ser duramente condenados.
A retirada
As potências ocidentais, ao abandonarem Ruanda a si mesma, não se cansam de justificar seu comportamento. As mensagens de Dallaire à ONU, levadas ao futuro secretário Kofi Annan, não citaram seus próprios erros, mas afirmavam ter feito todo o possível. O presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, que exigira uma intervenção internacional para evitar os massacres, desculpou-se afirmando que não sabia o que se sucedia em Ruanda.
A Bélgica pediu perdão, mas responsabilizou os próprios Capacetes Azuis por tudo. Também acusou o Vaticano e os líderes de outras religiões.
É verdade que muitos líderes da hierarquia religiosa, tanto católica, como anglicana, estavam comprometidos com o regime extremista dos hutus. Porém, naqueles meses, foram mortos 103 padres, 76 freiras e 53 irmãos consagrados.
Os únicos que não pediram desculpas foram o governo e o parlamento francês, que também haviam sustentado os extremistas hutus, até depois da morte de Habyarimana. Comentando uma pesquisa elaborada em 1998, o parlamento de Paris admite algumas falhas, mas insiste que “ninguém fez tanto quanto a França para estancar a violência em Ruanda”.
A atuação da ONU
Sobre as mil colinas de Ruanda morreu a esperança que, com o fim da bipolaridade EUA/URSS, a ONU poderia mostrar ao mundo um futuro de paz. Nos primeiros anos da década de 90, as Nações Unidas se empenharam em dezenas de campanhas pela paz. Foi a melhor demonstração da capacidade do Palácio de Vidro de ser incisivo e eficaz para prevenir situações de crise. Mas não em Ruanda, onde todo otimismo foi sepultado sob montanhas de cadáveres.
Faliram os órgãos responsáveis pelas campanhas, o secretariado geral, o Conselho de Segurança. A Assembléia Geral e a Comissão dos Direitos Humanos nada fizeram. A ONU foi um organismo inútil. A ONU tinha os meios para compreender o que acontecia e sabia como interferir. Poderia prevenir os massacres, se tivesse ouvido os pressentimentos de Dallaire. Poderia interromper ou, ao menos, limitar a violência entre abril e julho de 94, se tivesse enviado reforços que o general pedia com tanta insistência.
Poderia afrontar com eficácia as questões dos refugiados antes que acontecesse “a guerra mundial africana”, se interviesse a tempo, e se utilizasse melhor os recursos econômicos da Instituição para os casos de emergência. O fracasso da ONU em Ruanda foi culpa da irresponsabilidade pessoal de funcionários e de dirigentes. Será inútil pedir sua reforma, sem discutir – abertamente e com transparência –, os comportamentos do seu pessoal.
O genocídio ruandês é um dos piores eventos na história da humanidade. Entre os responsáveis, alguns começam a pagar pelos seus atos. Mas, entre os que podiam interferir para bloqueá-lo e não o fizeram, ninguém se preocupa. Hoje está difícil conseguir a estabilidade em Ruanda. O país está nas mãos firmes de Paul Kagame, desde as vitoriosas eleições do último verão. Ele é o general tutsi que, em 1994, levou a Frente Patriótica à vitória sobre a guerra civil.
Seu governo obteve importantes resultados econômicos e sociais, mas responde por graves violações de direitos humanos, de limitações à liberdade individual. Está ainda envolvido, não tanto como no passado, na guerra que levou à morte outros três milhões de pessoas na República Democrática do Congo. A situação da justiça e as condições de vida nas prisões do país são gravíssimas.
Paz, desenvolvimento, direitos humanos
Há quase dez anos de distância, Romeo Dallaire finalmente contou sua versão a respeito dos fatos, em um livro publicado em outubro de 2003 (Shake Hands With the Devil, Random House, 500 págs). Na conclusão de sua obra, o autor afirma ter repensado sobre o ódio que devastou Ruanda; sobre os milicianos que guerrearam no Congo e sobre a violência terrorista, que é a base dos ataques suicidas, tanto em Manhattan como em Israel.
Segundo o general, este ódio deve ser erradicado e isso só pode acontecer de um único modo: trabalhando contra a pobreza, na defesa dos direitos humanos, fazendo com que – para usar suas palavras – como o século 20 foi o século dos genocídios, seja o século 21 o século da humanidade.

Mulheres lideram reconstrução de Ruanda pós-genocídio



Da BBC News, em Kigali (Ruanda)





Depois do genocídio de 1994, as mulheres passaram a compor a maioria da população

Tantos foram os homens mortos durante o notório genocídio de Ruanda, em 1994, que sobrou às mulheres a tarefa de reerguer o país - tarefa esta que não foi fácil.
Em um dia recente, a capital Kigali estava em polvorosa para o show do rapper ugandense Dr. Jose Chameleone, que atraiu uma multidão de jovens e famílias.


Parece que o rapper sabe como conquistar a ala de mulheres modernas de Ruanda - obstinadas, independentes e ávidas para lutar por seus direitos.No show, Chameleone agitou a plateia, abriu uma bandeira de Uganda e, contrariando o estereótipo de popstar machista, gritou: "Mulheres, unidas! Digam não à violência doméstica!"

Esse entusiasmo pela igualdade de gêneros é influenciado por fatos ocorridos há quase 20 anos, quando um dos genocídios mais devastadores do século 20 dizimou muitos dos homens do país.
O genocídio, em que membros da etnia hutu massacraram tutsis e hutus contrários à carnificina, resultou na morte de mais de 1 milhão de pessoas ao longo de cem dias. Após a matança e o exílio de muitos homens, as mulheres passaram a compor 70% da população ruandesa.
"O trabalho de reconstruir Ruanda recaiu sobre nós", diz a parlamentar Faith Mukakalisa. "Desde então, estamos gritando pelo poder para as mulheres."

Nada de donas de casa

Trabalhar como dona de casa deixou de ser uma opção, diz Faith. Era preciso comandar os negócios, cultivar os campos agrícolas e tomar decisões importantes.

Atualmente, as mulheres detêm 56% dos assentos do Parlamento de Ruanda, de longe a maior taxa de parlamentares femininas do mundo.
A Constituição pós-genocídio, promovida pelo partido governista RPF, garante uma quota de 30% para congressistas femininas e também determina a igualdade de gêneros na educação, na posse de terras e na economia.
As mulheres têm poder de revisar leis e colocar em prática medidas de combate à discriminação. "É inegável", diz Mukakalisa. "As mulheres foram a fundação da nação relativamente estável que você vê hoje."
Mas não foi fácil alcançar essa estabilidade. E isso fica evidente em uma visita a um grupo de artesãs em uma fábrica local.
"Imagine chegar ao trabalho e sentar-se ao lado da esposa do homem que matou o seu marido, ou da mulher cujo parceiro está vivendo exilado depois de assassinar o seu irmão", conta uma delas.

Normalidade

Ainda assim, a determinação de voltar à normalidade, de voltar a colocar comida na mesa e aprender novas habilidades deu a elas força para se unir. Apesar de suas famílias terem guerreado entre si, elas decidiram sentar ao lado umas das outras, cantando e discutindo a vida comunitária.
A dona da fábrica diz ter orgulho cada vez que uma mulher ganha seu próprio dinheiro e abre uma conta bancária pela primeira vez.
Só que ainda há muito há fazer. Nos últimos cinco anos, cerca de 1 milhão de ruandeses saíram da pobreza, mas o salário médio do país é pouco mais de US$ 1 por dia.

A expectativa de vida média é de meros 50 anos. E, como lembrou o rapper Chameleone, a violência doméstica ainda afeta muitas das mulheres ruandesas.
De qualquer forma, para muitas mulheres, a percepção é de que elas podem ir longe.
Marie Aimee Umugeni, gerente de um centro de mulheres no distrito de Nyamirambo, está grávida de uma menina e muito feliz por isso.
Questionada a respeito do que sonha para sua filha, ela diz: "Que Ruanda continue a melhorar. Que o meu bebê tenha uma boa educação. Quem sabe ela vira uma política, uma professora ou uma engenheira quando crescer."
"Não é como quando eu era jovem", prossegue Umugeni. "Nada vai ser capaz de impedi-la de fazer o que ela quiser."