
Durante 100 dias, o mesmo número de dias que durou o Genocídio de mais de um milhão de ruandeses Tutsi e Hutu moderados, o Ruanda comemora mais um aniversário de um dos eventos mais terríveis do século XX.
Na noite de 6 para 7 de Abril de 1994, na sequência do abate do avião onde seguiam, o então Presidente do país, Juvénal Habyarimana e o seu homólogo do Burundi, que regressavam da Tanzânia onde tinham participado em negociações de paz com rebeldes Tutsi, o Ruanda (e o Burundi, com a mesma violência e consequências trágicas, ainda que em menor escala) viu-se imerso num período de terror ao longo do qual se tentou exterminar uma parte da população, perante o silêncio da comunidade internacional, que assistiu de braços cruzados à escalada da violência. Desde essa data as denominações "Hutu" e "Tutsi" tornaram-se familiares para muitas pessoas que assistiam incrédulas, aos acontecimentos, que a maioria dos órgãos de comunicação social afirmava terem origem em hostilidades tribais. Mas é demasiado simplista rotular de "tribalista" um conflito que tem origens muito mais remotas e complexas e cujas responsabilidades são partilhadas por vários actores. Também é demasiado redutor acorrentar um país a um momento único da sua história. A recente afirmação do actual presidente do Ruanda, Paul Kagame, à revista norte americana Fast Company "We will never forget the genocide, but we will not be defined by it either", expressa bem essa necessidade de olhar para o Ruanda de hoje, quinze anos depois do Genocídio.
E se há várias coisas que desconhecemos ou sobre as quais construímos conhecimentos errados relativamente aos eventos que aconteceram há 15 anos, há mais coisas ainda que desconhecemos sobre a actualidade deste país. Em primeiro lugar é fundamental desconstruirmos (nós e os próprios) a ideia de que Hutu e Tutsi são tribos/etnias distintas. Os dois grupos pertencem à mesma nação banyarwanda e partilham a mesma língua, religião e sistemas de clãs e de parentesco. Aliás, os dois grupos também não estão confinados ao território que é hoje o Ruanda, pois até 1962, altura em que se deu a independência do Burundi, estes dois países constituíam um único território colonial sob controlo da Bélgica. A divisão entre os dois grupos foi sempre, sobretudo, de ordem social, considerando-se Tutsi (cerca de 15% da população) todos aqueles que estavam mais próximos do Rei e que portanto constituíam uma espécie de aristocracia, que pela sua posição social privilegiada detinha mais poder, armas, terras e gado. Os Hutu eram (e são) tradicionalmente agricultores em terras governadas pelo Rei Tutsi, apesar de haver algumas áreas Hutu independentes.
Um dos principais instrumentos usados para atacar de forma sistemática os Tutsi durante o Genocídio foi o Cartão de Identidade (indangamuntu em Kinyarwanda) que distinguia a origem Tutsi, Hutu ou Twa (pigmeu) dos indivíduos. Este, significava uma verdadeira sentença de morte para qualquer Tutsi pois permitia a sua identificação, ao mesmo tempo que facilitava o distanciamento entre os assassinos e as suas vítimas. Segundo os testemunhos de vários sobreviventes, os documentos eram cuidadosamente recolhidos após o assassinato dos portadores e entregues aos comandantes dos massacres que os usavam para determinar o número de vítimas.
Estes cartões de identidade foram instituídos em 1933 pela Bélgica, que os introduziu precisamente para criar uma divisão social artificial, por forma a manter o controlo da elite Tutsi, através da qual governava a colónia. Durante vários anos tentaram justificar racialmente a diferenciação destes grupos mas, não tendo conseguido, acabaram por se basear na diferenciação económica passando a definir por "Tutsi" qualquer proprietário de 10 ou mais cabeças de gado. Desta forma institui-se a segregação mas também a impossibilidade de mobilidade social. A grande maioria da população, Hutu, perdeu assim direitos de cidadania e representatividade política e social, desenvolvendo um movimento de resistência que foi brutalmente reprimido nos anos 40, obrigando milhares de pessoas a refugiar-se no Uganda. Perante uma crise social cada vez maior e contestação por parte dos Hutu e um crescente sentimento nacionalista por parte dos Tutsi urbanos de classe média, a Bélgica resolve sair de cena, garantindo a independência e a realização das primeiras eleições livres, em 1961, e encorajando um ambiente violento anti-Tutsi como forma de desviar as atenções das suas próprias responsabilidades no cenário de tumulto social em que abandona o país.
Nos anos a seguir à independência tanto no Ruanda como no Burundi verificou-se a intensificação da segregação política e social entre os dois grupos, facto que nos anos 90, perante uma crise económica extrema (originada pela enorme dependência agrícola - 94% da população - da produção de café na altura em que os preços deste produto entram em colapso e o mercado é liberalizado, suspendendo-se as cotas de exportação até aí existentes) que aumentou a fome, a pobreza e as doenças criou as condições para a profunda crise social em que estes países estavam mergulhados no dia 7 de Abril de 1994.
Os traumas psicológicos que ainda hoje assombram os sobreviventes são difíceis de avaliar, mas outras consequências do Genocídio, como os 613 mil órfãos com menos de 14 anos registados em 2004, apresentam números impressionantes.
O desafio de garantir a reconstrução, reconciliação e estabilidade social era há 15 anos extraordinário, no entanto, hoje em dia o Ruanda é um modelo de desenvolvimento e uma referência para os países vizinhos. Várias estratégias desencadeadas ao longo dos últimos anos estão na origem deste sucesso. Desde logo, em 1996, a abolição dos Cartões de Identidade com referência à suposta pertença "étnica" constituiu um marco importante que assinala uma nova fase na vida do país, reconhecendo os mesmos direitos a todos os cidadãos e desvalorizando o seu grupo social de origem. Mas, para atenuar o sofrimento dos que sobreviveram ao genocídio e restaurar a confiança nas instituições sociais, nomeadamente na justiça, introduziu-se, em 2001, o sistema judicial tradicional Gacaca que tratou de cerca de 1,5 milhões de casos de suspeitos de participação no Genocídio. O novo governo também contribuiu fortemente para o alívio da tensão social introduzindo um sistema de liderança descentralizado e representativo dos diferentes grupos sociais em todos os níveis políticos e, em 2003, uma nova constituição (elaborada após referendo) que institui um limite de dois mandatos presidenciais, assim como a institucionalização da partilha do poder, a impossibilidade de o Presidente da República e de o Presidente da Assembleia serem do mesmo partido e a proibição de o Presidente nomear chefes de gabinete apenas de um partido.
Nos últimos anos verificou-se também um grande desenvolvimento no que respeita à igualdade de género e o Ruanda é um dos poucos países do mundo onde o parlamento é liderado por uma mulher, Rose Mukantabama.
Em termos económicos os progressos são impressionantes. A indústria do turismo tem tido um crescimento notável e a aposta do governo na criação de infra-estruturas tem atraído o investimento e a ajuda estrangeira. Segundo o Ministro das Finanças, em declarações recentes, o PIB do país cresceu 6% em 2008 e regista uma optimista perspectiva de crescimento. O Ruanda pretende também impor-se como um exemplo de desenvolvimento tecnológico na região prevendo construir, até ao final deste ano, uma rede de fibra óptica que vai ligar 30 distritos do país. Fundamental para o desenvolvimento económico foi a total reestruturação do sector agrícola, de acordo com as características locais (desadequadas para a agricultura intensiva), com grandes progressos realizados no sector do café e do chá, aumentando a produção e a exportação dos produtos.
Igualmente notável é a transformação registada na capital, Kigali, que deixou de ser uma das cidades mais poluídas, para ser considerada hoje, pela Habitat Internacional, uma das cidades mais limpas e seguras de África, ao que não é alheio um enorme esforço de educação ambiental que reduziu significativamente o uso de plásticos e a poluição.
O papel do actual presidente do país é incontornável quando se trata do desenvolvimento do Ruanda pós-Genocídio e, mesmo os críticos mais duros, que o acusam de se aproveitar dos acontecimentos do passado para manter um regime de partido único ou de contribuir para a instabilidade de alguns países na região, não podem negar a evolução registada nos últimos anos.
Tudo indica que os ruandeses estão a trilhar um novo caminho, juntos, deixando cada vez mais para trás os episódios terríveis do passado. No entanto, na eleição dos seus representantes ainda conta sobretudo a sua pertença social e não os ideais políticos ou as propostas legislativas. Os ruandeses Tutsi e Hutu já podem casar (e alguns fazem-no) e têm os mesmo direitos, mas a maioria continua a viver ignorando o outro grupo e estranhando-se. Ainda é normal acrescentarem imediatamente a seguir à nacionalidade a denominação Hutu ou Tutsi e vemos com mais facilidade cidadãos Hutu do Ruanda e do Burundi a conviver entre si, assim como Tutsi do Ruanda e do Burundi, do que uns com os outros nos seus próprios países. A democracia é um processo lento e no Ruanda tem apenas 15 anos. Está em plena adolescência. Talvez daqui a mais alguns anos, quando atingir a maturidade, o peso das ideias e dos projectos políticos seja mais forte do que o peso das divisões sociais
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